Eu sei... o dia da mulher já passou. Lêdo engano. O dia da mulher é cada dia deste árduo dia-a-dia. E deixo aqui o link do blogger de uma amiga onde se encontra um texto simplesmente... feliz! Afinal, com Millôr não se discute!
Confira aqui.
10 março 2007
Resquícios do dia da mulher...
22 fevereiro 2007
O Amor é uma Falácia
(M. Sulman)
Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto - era tudo isso. Tinha um cérebro poderoso como um dínamo, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - dezoito anos.
Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu companheiro de quarto na universidade, Pettey Bellows. Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma porta. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior do que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar a alguma idiotice só porque os outros a segue, isto, para mim, é o cúmulo da insensatez. Petey, no entanto, não pensava assim.
Certa tarde, encontrei-o deitado na cama com tal expressão de sofrimento no rosto que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite.
- Não se mexa. Não tome laxante. Vou chamar o médico.
- Couro preto - balbuciou ele.
- Couro preto? - disse eu, interrompendo a minha corrida.
- Quero uma jaqueta de couro preto - disse.
Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.
- Por que você quer uma jaqueta de couro preto?
- Eu devia ter adivinhado - gritou ele, socando a cabeça - Devia ter adivinhado que eles voltariam com o Charleston. Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro em livros para as aulas e agora não posso comprar uma jaqueta de couro preto.
- Quer dizer - perguntei incrédulo - que estão mesmo usando jaquetas de couro preto outra vez?
- Todas as pessoas importantes da universidade estão. Onde você tem andado?
- Na biblioteca - respondi, citando um lugar não freqüentado pela pessoas importantes da Universidade.
Ele saltou da cama e pôs-se a andar de um lado para o outro do quarto.
- Preciso conseguir uma jaqueta de couro preto - disse, exaltado - Preciso mesmo.
- Por que, Pety? Veja a coisa racionalmente. Jaquetas de couro preto são desconfortáveis. Impedem o movimento dos braços. São pesadas, são feias, são...
- Você não compreende - interrompeu ele com impaciência - é o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?
- Não - respondi, sinceramente.
- Pois eu sim - declarou ele - daria tudo para ter uma jaqueta de couro preto. Tudo.
Aquele instrumento de precisão, meu cérebro, começou a funcionar a todo vapor.
- Tudo? - perguntei, examinando seu rosto com olhos semicerrados.
- Tudo - confirmou ele, em tom dramático.
Alisei o queixo, pensativo. Eu, por acaso, sabia onde encontrar uma jaqueta de couro preto. Meu pai usara um nos seus tempos de estudante; estava agora dentro de um malão, no sótão da casa. E, também por acaso, Petey tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à sua namorada, Polly Spy.
Eu há muito desejava Polly Spy. Apresso-me a esclarecer que o meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvida, despertava emoções, mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Polly para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.
Cursava eu o primeiro ano de direito. Dali a algum tempo, estaria me iniciando na profissão. Sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo as minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Polly preenchia perfeitamente estes requisitos.
Era bonita. Suas proporções ainda não eram clássicas, mas eu tinha certeza de que o tempo se encarregaria de fornecer o que faltava. A estrutura básica estava lá.
Graciosa também era. Por graciosa quero dizer cheia de graças sociais. Tinha porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. Á mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Polly no barzinho da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche que continha pedaços de carne assada, molho, castanhas e repolho - sem nem sequer umedecer os dedos.
Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava em que, sob a minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.
- Petey - perguntei - você ama Polly Spy?
- Eu acho que ela é interessante - respondeu - mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?
- Você - continuei - tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?
- Não. Nos vemos seguidamente. Mas saímos os dois com outros também. Por quê?
- Existe alguém - perguntei - algum outro homem que ela goste de maneira especial?
- Que eu saiba não. Por quê?
Fiz que sim com a cabeça, satisfeito.
- Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isso?
- Acho que sim. Aonde você quer chegar?
- Nada, anda - respondi com inocência, tirando minha mala de dentro do armário.
- Onde é que você vai? - quis saber Petey.
- Passar o fim de semana em casa.
Atirei algumas roupas dentro da mala.
- Escute - disse Petey, apegando-se com força ao meu braço - em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar uma jaqueta de couro preto?
- Posso até fazer mais do que isso - respondi, piscando o olho misteriosamente. Fechei a mala e saí.
- Olhe - disse a Petey, ao voltar na segunda feira de manhã. Abri a mala e mostrei o enorme objeto cabeludo e fedorento que meu pai usara ao volante de seu Stutz Beacat em 1955.
- Santo Pai - exclamou Petey com reverência. Passou as mãos na jaqueta e depois no rosto.
- Santo Pai - repetiu, umas quinze ou vinte vezes.
- Você gostaria de ficar com ele? - perguntei.
- Sim - gritou ele, apertando a jaqueta contra o peito. Em seguida, seus olhos assumiram um ar precavido. - O que quer em troca?
- A sua namorada - disse eu, não desperdiçando palavras.
- Polly? - sussurrou Petey, horrorizado. - Você quer a Polly?
- Isso mesmo.
Ele jogou a jaqueta pra longe.
- Nunca - declarou resoluto.
Dei de ombros.
- Tudo bem. Se você não quer andar na moda, o problema é seu.
Sentei-me numa cadeira e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Petey, com o rabo dos olhos. Era um homem partido em dois. Primeiro olhava para a jaqueta com a expressão de uma criança desamparada diante da vitrine de uma confeitaria. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois voltava a olhar para a jaqueta. Com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo ascendendo, a resolução descendendo. Finalmente, não se virou mais: ficou olhando para a jaqueta com pura lascívia.
- Não é como se eu estivesse apaixonado por Polly - balbuciou. - Ou mesmo namorando sério, ou coisa parecida.
- Isso mesmo - murmurei.
- Afinal, Polly significa o que para mim, ou eu pra ela?
- Nada - respondi.
- Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco. Só isso.
- Experimente a jaqueta - disse eu.
Ele obedeceu. A jaqueta ficou bem larga, passando da cintura. Ele parecia um motoqueiro mal vestido da década de cinqüenta.
- Serve perfeitamente - disse, contente.
Levantei-me da cadeira e perguntei, estendendo a mão.
- Negócio feito?
Ele engoliu a seco.
- Feito - disse, e apertou a minha mão.
Saí com Polly pela primeira vez na noite seguinte.
O Primeiro programa teria o caráter de pesquisa preparatória. Eu desejava saber o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para jantar.
- Puxa, que jantar interessante! - disse ela, quando saímos do restaurante. Fomos ao cinema.
- Puxa, que filme interessante! - disse ela, quando saímos do cinema.
Levei-a para casa.
- Puxa, que noite interessante - disse ela, ao nos despedirmos.
Voltei para o quarto com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça era aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento se me afigurava gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Petey. Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos e na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca, um garfo, e decidi tentar novamente.
Procedi, como sempre, sistematicamente. Dei-lhe um curso de Lógica. Acontece que, como estudante de direito, eu freqüentava na ocasião aulas de Lógica, e portanto tinha tudo na ponta da língua.
- Polly - disse eu, quando fui buscá-la para o nosso segundo encontro. - Esta noite vamos até o parque conversar.
- Ah, que interessante! - respondeu ela.
Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo.
Fomos até o parque, o local de encontros da universidade, nos sentamos debaixo de uma árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.
- Sobre o que vamos conversar? - perguntou.
- Sobre Lógica.
Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:
- Interessante!
- A Lógica - comecei, limpando a garganta - é a ciência do pensamento. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias mais comuns da Lógica. É o que vamos abordar hoje.
- Interessante! - exclamou ela, batendo palmas de alegria.
Fiz uma careta, mas segui em frente, com coragem.
- Vamos primeiro examinar uma falácia chamada Dicto Simpliciter.
- Vamos - animou-se ela, piscando os olhos com animação.
- Dicto Simpliciter quer dizer um argumento baseado numa generalização não qualificada. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.
- Eu estou de acordo - disse Polly, fervorosamente. - Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.
- Polly - disse eu, com ternura - o argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordem de seus médicos para não exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom para a maioria das pessoas. Do contrário está-se cometendo um Dicto Simpliciter. Você compreende?
- Não - confessou ela. - Mas isso é interessante. Quero mais. Quero mais!
- Será melhor se você parar de puxar a manga da minha camisa - disse eu e, quando ela parou, continuei:
- Em seguida, abordaremos uma falácia chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Petey Bellows não sabe falar francês. Devo portanto concluir que ninguém na universidade sabe falar francês.
- É mesmo? - espantou-se Polly. - Ninguém?
Contive a minha impaciência.
- É uma falácia, Polly. A generalização é feita apressadamente. Não há exemplos suficientes para justificar a conclusão.
- Você conhece outras falácias? - perguntou ela, animada. - Isto é até melhor do que dançar.
Esforcei-me por conter a onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça, absolutamente nada. Mas não sou outra coisa senão persistente. Continuei.
- A seguir, vem o Post Hoc. Ouça: Não levemos Bill conosco ao piquenique. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.
- Eu conheço uma pessoa exatamente assim - exclamou Polly. - Uma moça da minha cidade, Eula Becker. Nunca falha. Toda vez que ela vai junto a um piquenique...
- Polly - interrompi, com energia - é uma falácia. Não é Eula Becker que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em Post Hoc, se puser a culpa na Eula Becker.
- Nunca mais farei isso - prometeu ela, constrangida. - Você está bravo comigo?
- Não Polly - suspirei. - Não estou bravo.
- Então conte outra falácia.
- Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias.
- Vamos - exclamou ela alegremente.
Franzi a testa, mas continuei.
- Aí vai um exemplo de premissas contraditórias. Se Deus pode fazer tudo, pode fazer uma pedra tão pesada que ele mesmo não conseguirá levantar?
- É claro - respondeu ela imediatamente.
- Mas se ele pode fazer tudo, pode levantar a pedra.
- É mesmo - disse ela, pensativa. - Bem, então eu acho que ele não pode fazer a pedra.
- Mas ele pode fazer tudo - lembrei-lhe.
Ela coçou a cabeça linda e vazia.
- Estou confusa - admitiu.
- É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?
- Conte outra dessas histórias interessantes - disse Polly, entusiasmada.
Consultei o relógio.
- Acho melhor parar por aqui. Levarei você em casa, e lá pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã.
Deixei-a no dormitório das moças, onde ela me assegurou que a noitada fora realmente interessante, e voltei desanimadamente para o meu quarto. Petey roncava sobre sua cama, com a jaqueta de couro encolhida a seus pés. Por alguns segundos, pensei em acordá-lo e dizer que ele podia ter Polly de volta. Era evidente que o meu projeto estava condenado ao fracasso. Ela tinha, simplesmente, uma cabeça à prova de Lógica.
Mas logo reconsiderei. Perdera uma noite, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido que era a mente de Polly, algumas brasas ainda estivessem vivas. Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejasse. As perspectivas não eram das mais animadoras, mas decidi tentar outra vez.
Sentado sob uma árvore, na noite seguinte, disse:
- Nossa primeira falácia desta noite se chama ad misericordiam.
Ela estremeceu de emoção.
- Ouça com atenção - comecei - Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e dois filhos em casa, que a mulher e aleijada, as crianças não tem o que comer, não tem o que vestir nem o que calçar, a casa não tem camas, não há carvão no porão e o inverno se aproxima.
Uma lágrima desceu por cada uma das faces rosadas de Polly.
- Isso é horrível, horrível! - soluçou.
- É horrível - concordei - mas não é um argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre as suas qualificações. Ao invés disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia de ad misericordiam. Compreendeu?
Dei-lhe um lenço e fiz o possível para não gritar enquanto ela enxugava os olhos.
- A seguir - disse, controlando o tom da voz - discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante os exames. Afinal, os cirurgiões levam as radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas que os orientam na construção de uma casa. Por quê, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?
- Pois olhe - disse ela entusiasmada - está e a idéia mais interessante que eu já ouvi há muito tempo.
- Polly - disse eu com impaciência - o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo teste para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas.
- Continuo achando a idéia interessante - disse Polly.
- Santo Cristo! - murmurei, com impaciência.
- A seguir, tentaremos a hipótese contrária ao fato.
- Essa parece ser boa - foi a reação de Polly.
- Preste atenção: se Madame Curie não deixasse, por acaso, uma chapa fotográfica numa gaveta junto com uma pitada de pechblenda, nós hoje não saberíamos da existência do rádio.
- É mesmo, é mesmo - concordou Polly, sacudindo a cabeça. - Você viu o filme? Eu fiquei louca pelo filme. Aquele Walter Pidgeon é tão bacana! Ele me faz vibrar.
- Se conseguir esquecer o Sr. Pidgeon por alguns minutos - disse eu, friamente - gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. Madame Curie teria descoberto o rádio de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa o descobrisse. Muita coisa podia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese que não é verdadeira e tirar dela qualquer conclusão defensável.
- Eles deviam colocar o Walter Pidgeon em mais filmes - disse Polly - Eu quase não vejo ele no cinema.
Mais uma tentativa, decidi. Mas só mais uma. Há um limite para o que podemos suportar.
- A próxima falácia é chamada de envenenar o poço.
- Que engraçadinho! - deliciou-se Polly.
- Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levante e diz: 'o meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só apalavra do que ele disser'. Agora, Polly, pense bem, o que está errado?
Vi-a enrugar a sua testa cremosa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência - o primeiro que vira - surgiu nos seus olhos.
- Não é justo! - disse ela com indignação - Não é justo. O primeiro envenenou o poço antes que os outros pudesse beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar... Polly, estou orgulhoso de você.
- Ora - murmurou ela, ruborizando de prazer.
- Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo o que aprendemos até agora.
- Vamos lá - disse ela, com um abano distraído da mão.
Animado pela descoberta de que Polly não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo o que dissera até ali. Sem parar citei exemplos, apontei falhas, martelei sem dar trégua. Era como cavar um túnel. A princípio, trabalho duro e escuridão. Não tinha idéia de quando veria a luz ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, até que fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo.
Levara cinco noites de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Polly em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Está apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões. Uma mãe adequada para os meus filhos privilegiados.
Não se deve deduzir que eu não sentia amor por ela. Muito pelo contrário. Assim como Pigmaleão amara a mulher perfeita que moldara para si, eu amava a minha. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar as nossas relações, de acadêmicas para românticas.
- Polly, disse eu, na próxima vez que nos sentamos sob a árvore - hoje não falaremos de falácias.
- Puxa! - disse ela, desapontada.
- Minha querida - prossegui, favorecendo-a com um sorriso - hoje é a sexta noite que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.
- Generalização apressada - exclamou ela, alegremente.
- Perdão - disse eu.
- Generalização apressada - repetiu ela. - Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?
Dei uma risada, contente. Aquela criança adorável aprendera bem as suas lições.
- Minha querida - disse eu, dando um tapinha tolerante na sua mão - cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.
- Falsa Analogia - disse Polly prontamente - eu não sou um bolo, sou uma pessoa.
Dei outra risada, já não tão contente. A criança adorável talvez tivesse aprendido a sua lição bem demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto o meu potente cérebro selecionava as palavras adequadas. Depois reiniciei.
- Polly, eu te amo. Você é tudo no mundo pra mim, é a lua e a estrelas e as constelações no firmamento. For favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão a minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, um fantasma de olhos vazios.
Pronto, pensei; está liquidado o assunto.
- Ad misericordiam - disse Polly.
Cerrei os dentes. Eu não era Pigmaleão; era Frankenstein, e o meu monstro me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava invadir-me. Era preciso manter a calma a qualquer preço.
- Bem, Polly - disse, forçando um sorriso - não há dúvida que você aprendeu bem as falácias.
- Aprendi mesmo - respondeu ela, inclinando a cabeça com vigor.
- E quem foi que ensinou a você, Polly?
- Foi você.
- Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia.
- Hipótese Contrária ao Fato - disse ela sem pestanejar.
Enxuguei o suor do rosto.
- Polly - insisti, com voz rouca - você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.
- Dicto Simpliciter - brincou ela, sacudindo o dedo na minha direção.
Foi o bastante. Levantei-me num salto, berrando como um touro.
- Você vai ou não vai me namorar?
- Não vou - respondeu ela.
- Por que não? - exigi.
- Porque hoje à tarde eu prometi a Petey Bellows que eu seria a namorada dele.
Quase caí para trás, fulminado por aquela infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!
- Aquele rato! - gritei, chutando a grama. - Você não pode sair com ele, Polly. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.
- Envenenar o poço - disse Polly - E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.
Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei a minha voz.
- Muito bem - disse - você é uma lógica. Vamos olhar as coisas logicamente. Como pode preferir Petey Bellows? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com futuro assegurado. E veja Petey: um maluco, um boa vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Petey Bellows?
- Posso sim - declarou Polly - Ele tem uma jaqueta de couro preto.
(in Sulman, M. (1973): As calcinhas cor-de-rosas do Capitão, Porto Alegre: Ed. Globo)
Porque será que os valores deste texto parecem tão atuais?
06 agosto 2006
O Príncipe - Maquiavel
Come se vive a come se dovrebbe vivere.
Não poderia estar realizando uma leitura mais apropriada para este momento. Porque como se vive é muito diferente do que como se deveria viver de fato. Compreendo agora porque o estereótipo "maquiavélico". De maquiavélico ele não tem nada. Como comentou Pierre Manent, "Maquiavel seria o artífice da moralização da necessidade". O babaca neste livro para mim é Napoleão Bonaparte que, no bom popular, "se acha" ao comentar os conselhos de Maquiavel.
Descobrindo aos pouco que o mundo não é plano, deixo aqui alguns trechos da leitura. Ainda estou por terminar, mas uma coisa é certa: é impressionante como ao ver Maquiavel dar conselhos aos príncipes acredito que ele mais alertava o povo.
"(...) quem não prepara os alicerces do poder antes de alcança-lo com valor pode fazê-lo depois, embora isso represente um grande esforço para o arquiteto, e perigo para o edifício."
"(...) não pode haver boas leis onde não há bons soldados, devendo haver boas leis quando os soldados são bons (...)"
"De fato, o modo como vivemos é tão diferente daquele como deveríamos viver, que quem despreza o que se faz e se atém ao que deveria ser feito, aprenderá a maneira de se arruinar, e não a defender-se. Quem quiser praticar sempre a bondade em tudo que faz está fadado a sofrer, entre tantos que não são bons."
"Estará perdido o príncipe que tiver confiado inteiramente nas suas palavras, sem tomar outras cautelas, porque a amizade conquistada pelo dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de espírito, não é segura - não se pode contar com ela. Os homens tem menos escrúpulos em ofender quem se faz amar do que quem se faz temer, pois o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários, já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca falha."
Leitura super recomendada. Abstraindo as leis de Murphy que me regeram esta semana.
08 julho 2006
Heróis de Verdade
Mais uma leitura recomendada: Heróis de Verdade de Roberto Shinyashiki.
Para a "turma do contra" aos livros de auto-ajuda (nem gosto desta classificação, mas...), dou logo meu recado baseada no próprio teor do livro. "Muitas pessoas lêem um livro como este em um estado mental em que se sentem maravilhosas, e então a vida delas pouco muda. Como é ler alguma coisa a partir do ego? É pensar apenas nos outros e não mergulhar em uma análise mais profunda de si mesmo. É aquela mania de pensar:
- Minha mãe deveria ler isso aqui.
- Meu irmão é desse jeito.
É sinal de arrogância analisar só os outros e não refletir sobre si mesmo. Isso geralmente significa posar de semideus: eu sou maravilhoso, o outro é que tem que mudar!"
Ou seja, completo as palavras de Shinyshiki por constatar muitas vezes pessoas criticando livros de auto-ajuda como se o autor tivesse encontrado uma forma fácil de ganhar dinheiro. Discordo. Um escritor como este sobre o qual tenho lido fragmentos de idéias relatados em alguns posts anteriores que já escrevi (clique aqui e aqui) deu tanto duro para ser o que é quanto nós. Estamos falando de um psiquiatra, que fez faculdade como nós, que trabalhou assalariado como nós, mas que, pela própria profissão, consegue enxergar o que todos tentamos disfarçar: nossa essência e o que realmente somos. E mais. Um autor que não se faz do ser humano mais equilibrado do mundo. Relata suas fraquezas e declara também estar na caminhada de crescimento.
Ele começa o livro mostrando que ter sucesso, dinheiro e/ou ser celebridade não necessariamente é garantia de felicidade e plenitude pessoal. Demonstra pessoas famosas como Michael Jackson na sua luta para parecer o que não é, nos deixando na dúvida se sua despigmentação de pele é de fato uma doença ou sequelas de uma sucessão de cirurgias plásticas para "embranquecer". Jimi Hendrix, Jim Morrison, Brian Jones, Janis Joplin, vítimas de depressão. Pessoas destas deveriam ter depressão? Kurt Cobain e Marilyn Monroe, um com o sucesso do Nirvana e a outra sendo a mulher mais cobiçada do mundo: suicidaram-se. Um amontoado de dores escondidas em um mundo de aparências.
No livro, então, ele tenta mostrar que se pode viver sendo o que realmente somos e não o que os outros gostariam que fóssemos. "Sempre que ouvir as opiniões dos outros sobre você, lembre-se de que são apenas a manifestação das idéias deles."
Ou seja, acredito em livros deste tipo. Pois como ele mesmo diz, "todos nós temos necessidades de segurança, de aceitação e de admiração. Isso é natural e normal. Todos nós precisamos saber que temos um lugar onde morar, uma estrtura para viver e algum dinheiro no banco para nossos projetos ou para alguma emergência. Todos nós precisamos nos sentir amados pelas pessoas importantes em nossa vida. Assim como todos nós precisamos nos sentir admirados pelas pessoas queridas.". Ou seja. Seja celebridade, executivo, classe média, classe pobre, todo ser humano possui estas necessidades. E diz mais:
"O drama é que nada que vem de fora será capaz de saciar essas necessidades.
Nenhum dinheiro no mundo tornará você uma pessoa mais segura.
Nenhum amor do mundo fará você se sentir mais amado.
Nenhum aplauso lhe trará mais admiração."
... se você não ser tornar um Herói de Verdade. Uma pessoa comum que vive sua essência.
Recomendadíssimo!
P.S. Paulinho, obrigada pelo livro. Você não tem noção de quanto um empréstimo deste pode ser valioso! Melhor que emprestar dinheiro a juros! (ou o correto seria, "melhor que gastar todas as suas economias e comprar um carro da Ford financiado"?)(Risos)
02 julho 2006
O Monge e O Executivo
Devorei um livro hoje. Na praia, sob um ventinho frio só não sentido pelo sol quente que lançava uma disputa acirrada e vencedora no ambiente. Valeu a pena. Acabei de ler o Livro "O MONGE E O EXECUTIVO - UMA HISTÓRIA SOBRE A ESSÊNCIA DA LIDERANÇA" (James C. Hunter).
Poderia fazer um análise crítica imensa do livro. Mas cada crítica é uma crítica. A minha pode em nada servir para outrém. Então deixo apenas o trechos marcantes de cada capítulo e uma parte que resume mais ou menos o que o livro quer dizer na essência. Bom para liderar e ser liderado. E isto vale para o trabalho, para a família, para todos os tipos de relações.
"Estar no poder é como ser uma dama. Se tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é." - MARGARETH THATCHER (Capítulo 1: As definições)
"Se você não mudar a direção, terminará exatamente onde partiu." - ANTIGO PROVÉRBIO CHINÊS (Capítulo 2: O Velho Paradigma)
"Quem quiser ser líder deve ser primeiro servidor. Se você quiser liderar, deve servir." - JESUS CRISTO (Capítulo 3: O Modelo)
Esta foi maravilhosa e o capítulo em si dá uma definição impressionate do conceito de amor: "Não tenho necessariamente que gostar de meus jogadores e sócios, mas como líder devo amá-los. O amor é lealdade, o amor é trabalho de equipe, o amor respeita a dignidade e a individualidade. Esta é a força de qualquer organização." – VINCE LOMBARDI (Capítulo 4: O Verbo)
"Homens e mulheres desejam fazer um bom trabalho. Se lhes for dado o ambiente adequado, eles o farão. – BILL HEWLETT,FUNDADOR DA HEWLETT-PACKARD (Capítulo 5: O Ambiente)
Um tercho especial do capítulo 7, A Recompensa, que achei que resumia muito bem como deveria ser a liderança bem aplicada:
"Como Vince Lombardi disse: 'Nós não temos que gostar dos nossos colegas e sócios, mas, como líderes, somos instados a amá-los e tratá-los como gostaríamos de ser tratados'. E como quero ser tratada? Quero que meu líder seja paciente comigo, me dê atenção, me valorize, me incentive, seja autêntico comigo, me trate com respeito, satisfaça minhas necessidades quando surgirem, me perdoe quando eu errar, seja honesto comigo, me dê retorno, me dê condições para atingir os objetivos e por fim seja comprometido. Então, a Regra de Ouro diz como devo me comportar em relação aos meus liderados. Exatamente como eu gostaria de ser tratada."
Uma "palhinha" para instigar à leitura completa do livro. Eu recomendo! Tenho o PDF caso seja do desejo de alguém! É só pedir!
21 junho 2006
A Arte da Guerra (Sun Tzu)
"Sun Tzu, natural de Ch'i, conseguiu, graças ao seu livro sobre a arte da guerra, chamar sobre si a atenção de Ho-lü, rei de Wu.
Ho-lü disse: 'Li, Senhor, os seus treze capítulos completos. Seria capaz de me fazer uma pequena demonstração de controle de tropas?'
Sun Tzu respondeu: 'Sou, sim'.
Ho-lü perguntou: 'Poderá a experiência ser feita com mulheres?'
Sun Tzu assentiu: 'Pode, sim'
Concordando, o rei mandou que do palácio viessem 180 belas mulheres.
Sun Tzu dividiu-as em duas companhias, colocando à frente de cada uma delas uma das favoritas do rei. A todas ensinou como empunhar alabardas. Perguntou-lhes então: 'Sabeis onde estão o coração, as mãos, direita e esquerda, e as costas?'
E as mulheres afirmaram: 'Sabemos'.
Sun Tzu explicou-lhes: 'Quando eu der a ordem 'em frente', virai-vos para onde o coração está virado. Quando mandar 'à esquerda!', voltai-vos para o lado da mão esquerda. Quando mandar 'à direita!', voltar-vos-ei para o da direita. Finalmente quando ordenar 'à retaguarda!', virar-vos-eis na direção de vossas costas.' E as mulheres tornaram a afirmar: 'Entendemos'.
Uma vez feitas essas recomendações, informou-as que os instrumentos do carrasco estavam prontos para funcionar caso suas ordens não fossem obedecidas.
Sun Tzu proferiu as ordens três vezes e explicou-as cinco vezes mais, após o que ordenou ao tamborim que rufasse 'direita volver!'
As mulheres desandaram a rir.
Sun Tzu comentou: “SE OS REGULAMENTOS NÃO SÃO CLAROS E AS ORDENS NÃO SÃO PERFEITAMENTE EXPLICADAS, A CULPA É DO COMANDANTE”.
Assim, repetiu as ordens mais três vezes e explicou-as mais cinco vezes, após o que fez o sinal ao tamborim para que rufasse 'esquerda volver!'. De novo as mulheres caíram na gargalhada.
Sun Tzu comentou: 'SE AS INSTRUÇÕES NÃO SÃO CLARAS, E OS COMANDOS, POUCO EXPLÍCITOS, A CULPA É DO COMANDANTE. E QUANDO SÃO BEM CLARAMENTE POSTOS, MAS NÃO EXECUTADOS DE ACORDO COM OS DITAMES MILITARES, ENTÃO A CULPA É DOS OFICIAIS”.
Logo a seguir, ordenou que as mulheres no comando das divisões esquerda e direita fossem decapitadas.
O rei de Wu, que do alto do seu terraço assistia aos exercícios, viu que as suas duas queridas concubinas seriam executadas. Aterrado, enviou com toda a pressa um ajudante-de-campo, com a seguinte mensagem: 'Já verifiquei ser o general capaz de lidar com tropas. Sem aquelas concubinas, a minha comida perderá o seu sabor. É meu desejo que não sejam executadas'.
Sun Tzu respondeu-lhe: 'Este vosso servo foi por vós próprio nomeado comandante-chefe, e quando um comandante-chefe encabeça as suas tropas, não é obrigado a obedecer totalmente ao seu soberano'.
Como exemplo, fez levar adiante a ordem de decapitação das duas mulheres que haviam comandado as duas divisões e nomeou como novas comandantes as duas que se lhe seguiam em categoria.
Repetiu as ordens com o tamborim, e as mulheres viraram à esquerda, à direita, em frente, à retaguarda, ajoelharam-se e ergueram-se, todas em total acordo com as instruções que lhes havia dado. Nem sequer ousaram produzir o mais leve ruído.
Sun Tzu enviou nessa altura uma mensagem ao rei informando que as tropas agora estavam em condições. 'O rei poderá descer e inspecioná-las. Estão prontas para serem utilizadas em conformidade com os reais desejos, por meio do ferro e do fogo, se for preciso'.
O rei de Wu respondeu-lhe: 'Pode o general voltar a seu quartel e descansar. Não inspecionaremos as tropas'.
Ao que Sun Tzu replicou: 'O REI APENAS APRECIA PALAVRAS OCAS. É INCAPAZ DE AS PÔR EM PRÁTICA'!"
A minha finalidade de leitura desta obra (A Arte da Guerra, Sun Tzu, Editora Martin Claret) é Governança em TI. É muito fácil enxergar situações como estas em empresas ocorrendo todos os dias e nas mais diversas situações, apesar de se considerar difícil correlacionar a obra de Sun Tzu à Gestão de Negócios, motivo pelo qual já se criaram varietais da obra aplicadas a áreas específicas de forma a facilitar a compreensão do leitor e aplicar os conceitos de guerra, à "guerra nossa de todo dia".
Mas observem a abrangência deste trecho. Leia o livro e tente enxergar a Arte da Guerra na vida em vários aspectos. Eu estou conseguindo a cada parágrafo. E você? O que acha a respeito?
